AS YARAS, O DEVIR-ÍNDIA, O DEVIR-SEREIA

Durante o período olímpico, com a chama dos deuses bafejando o espírito esportivo, o Brasil estava e está em chamas que dividem os espíritos, as classes, desafiam paradigmas e matam (registros, arquivos e pessoas).
Na Avenida Santo Amaro, na cidade de São Paulo, a estátua de Manuel da Borba Gato foi chamuscada em uma tentativa de incêndio pelo movimento Revolução Periférica. Borba Gato foi Juiz ordinário da vila de Sabará, bandeirante, descobridor de minas que teve papel fundamental na escravidão indígena e negra, com toda sorte de violência simbólica, material e física. Uma espécie de precursor das milícias brasileiras, que chegaram faz mais tempo do que pensamos no cerne da política nacional e continuam apoiando e executando o “genocídio” indígena e da juventude negra periférica. Política e milícia no Brasil se misturam tanto quanto política e religião, principalmente a do espectro neopentecostal. A estátua é do século XX, inaugurada em 1963 na comemoração do IV Centenário de Santo Amaro. A interpretação, a leitura da obra não é pacífica, mas múltipla. Não se chega a um consenso sobre a questão de a obra ser uma verdadeira homenagem ao bandeirantismo ou não. Mas fora do plano mais especializado e intelectualizado, a leitura que a população tem é a de homenagem à figura e ao que ela representou e representa. Muito também se fala sobre qual o destino que deveria ser dado aos monumentos públicos de figuras nocivas. Permanecerem contextualizados, “com explicações”, no estilo obra lobatiana com racismo contextualizado, em museus específicos? Serem ressignificados? Serem substituídos por figuras que foram oprimidas ao invés de historicamente opressoras? Permanecerem como são ou como ficaram esteticamente, como parte da ressignificação estética e histórica, ao modo dos grandes exemplos do Coliseu e do Partenon, e fundamentar mais a luta e a reivindicação por financiamento e propagação de bibliotecas, centros culturais, acervos (físicos e digitais) e políticas públicas para disseminação do conhecimento histórico-social (crítico) do país?
Levando em consideração a última proposta, nos deparamos com mais um incêndio da Cinemateca porque o governo Federal, alertado pelo MPF-SP sobre os riscos, nada fez e impediu que se fizesse. Não são preservados povos originários, pessoas não brancas, não são preservadas pessoas e nem registros de pessoas, de sua cultura, de sua história. A necropolítica, conceito tão debatido, usado e já questionado, perde nuances e atinge, na prática, um grau tanto simbólico quanto material muito incisivo e direto, mais ou menos como ocorria nos períodos dos projetos colonialistas. As armas da indiferença, da propagação do ódio, das fake news e da institucionalização política da trollagem e das milícias são o atual panorama tanatológico que se instaurou revigorado com o advento da pandemia da Covid-19.
Chamas.
Em Tóquio, a juventude negra periférica brasileira conseguiu vitórias, medalhas, contra toda a política necrófila e etnocida do país de origem. E a seleção feminina de rugby sevens, que já se despediu, conseguiu sua própria identidade visual representada nos uniformes, materiais de jogos e comunicação somente nesse ano, apesar de usar o apelido de Yaras desde 2014. Falei sobre chamas. Também falarei sobre águas. As seleções de rugby são conhecidas por apelidos, e as brasileiras são conhecidas como Tupis. Porém, a seleção feminina começou a se autodenominar Yaras em nome da representatividade e identificação femininas, em um sentido de acumular forças. Nas Olimpíadas de Tóquio, os uniformes precisam usar o símbolo nacional. Seja como for, a nova identidade visual tomou a mídia brasileira, com vídeo-manifesto, produtos e reportagens. Yara (Mãe d’água) é uma lenda indígena amazônica (região que vira e mexe está em chamas ou é dominada pelo agrocapitalismo miliciano) às vezes confundida com Iemanjá. Foi uma bela guerreira invejada pelos irmãos que a tocaiam, mas são mortos por ela. Por isso, é jogada pelo pai pajé ao Rio Negro e Solimões para morrer ou ser salva. Salva pelos peixes em noite de lua cheia, se transformou em uma espécie de sereia. O folclorista Câmara Cascudo afirma que a lenda é adaptação europeia pós-século XVII via portugueses. De qualquer modo, nas Olimpíadas a juventude negra periférica e as mulheres guerreiras puderam viver um momento vitorioso e de visibilidade difícil de conseguir ou sentir em seu país de origem. Os povos diaspóricos ou minoritários estão em devir, se refazendo. Talvez as medalhas sejam as vitórias que nosso ufanismo entorpecido consiga ver, mas elas não fazem ver imediatamente o refazimento de povos, que é a inversão da narrativa nacional ufanista, reforçada pelo governo, porém mais apoiador de colonialismo do que nunca. A inversão da narrativa é fazer ver que os povos são uma variação contínua, não uma unificação arregimentada pela ideologia da nação. Não existem identidades dadas, a não ser pela ideologia desconstituidora de povos via transcendência totalizante e, muitas vezes, totalitária. A mulher só é mulher porque persevera em seu devir-mulher, se refazendo mulher, divergindo do homem enquanto maioria, ou seja, enquanto detentor de um estatuto dominante. Todo estatuto dominante é maioria, todo deslocamento e fuga desse estatuto é minoria. Mas também há o devir-mulher do homem. Divergir não é cancelar, nenhum espaço é limitado e exíguo quando as culturas estão em devir. Há o devir-índio do branco ou do não índio. Há o devir-índia das Yaras. Nossas teorias brancas e não índias da mestiçagem e da democracia racial são, no fundo, racistas. Estratégias de manutenção do racismo e da mestiçagem formal. Mas antropologias índias dos índios hoje permitem ou entendem que, dependendo de contextos, ocasiões e experiências temporais e espaciais, é possível ser índio e branco, não índio, acumular posições simbólicas, culturais. As diaspóricas Yaras e as diaspóricas negras e não brancas estão vivendo uma profunda sororidade, uma profunda empatia, e, ao mesmo tempo, uma vontade de potência difícil de sentir, de viver, um refazimento da identidade, da vida. Com o perdão de Nitezsche (perdão nietzschiano?), uma vontade de potência sororitária. Se o índio aciona os códigos culturais dominantes da “maioria” branca e não índia, também há o devir-índio do branco e do não índio. Essencialismo é o elemento estatal que deixou ainda mais de apoiar os esportistas, também porque para o Estado não existem povos, não existe variação contínua de povos.
As Yaras se refizeram, se refazem, devêm. Com elas devirem, quero dizer que não mais fazem as mesmas avaliações, não mais sentem ou se comportam do mesmo modo. Segundo François Zourabichvili,

[…] não mudamos a nossa identidade: a memória permanece, carregada de tudo o que vivemos; o corpo envelhece sem metamorfose. Mas “devir” significa que os dados mais familiares da vida mudaram de sentido, ou que nós não entretemos mais as mesmas relações com os elementos costumeiros de nossa existência: o todo é repetido de outro modo.
Para isso é preciso a intrusão de algo de fora: alguém ou alguma coisa entrou em contato com algo ou alguém diferente de si mesmo, algo aconteceu. “Devir” implica, portanto, em segundo lugar, um encontro: algo ou alguém não se torna si mesmo a não ser em relação com outra coisa. A ideia de encontro, porém, é equívoca e depende do estatuto que concedemos a esse mundo exterior sem o qual alguém ou algo não sairia de si. Para a pergunta “o que encontramos?”, Deleuze & Guattari dão uma resposta paradoxal (não pessoas), e de aparência ingênua ou arbitrária (sobretudo animais ou paisagens, pedaços de natureza). Quanto ao amor, ele se endereçaria menos a uma pessoa do que à animação não-pessoal que lhe confere o seu “charme”, e que envolve algo mais do que ela (uma paisagem, uma atmosfera…).

As Yaras reduplicaram a afetividade guerreira da Yara, híbrido humano e não humano, contatando signos que as fizeram se sentirem de modo diferente, divergente, se reavaliarem, serem jogadas fora de si mesmas, como um contato extremo de rugby, para se refazerem.
Mas o que são as medalhas mesmo?

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