O que Karen Janz botou na mesa

A tsunami de emoções que vem do Japão direto para nossas madrugadas traz na espuma alguns objetos interessantes de razão e reflexão.
É nítido que os Jogos estão revelando mudanças de comportamento, ora dentro de sua própria estrutura olímpica, ora com efeitos na evolução da humanidade.
Há quebras de recordes e paradigmas.
Reparem as modalidades estreantes. O surf e o skate chegaram para ficar e suas manobras radicais carregam novos trajes, novo comportamento – uma espontaneidade alegre jamais vista – e novas linguagens.
Nada que seja um confronto aos esportes mais tradicionais. Nada de binário. Nada de ou um ou outro. Nada de “os Jogos não são mais os mesmos, perderem a elegância e o glamour olímpico”.
Tudo é evolução, assim caminha humanidade desde quando resolvemos sair das cavernas e enfrentar os bichos lá fora. E tudo é possível de coexistir, a prova e as provas olímpicas não me deixam mentir. A diversidade é uma bandeira fincada nesses tempos, apesar de o conservadorismo paralisante que esperneia no mundo.
O surf e o skate, e seus modos autênticos de ser, convivem perfeitamente com a elegância aristocrática do hipismo, com a beleza da esgrima, com a brutalidade permitida do boxe, com o desfile das velas, com o balé da ginástica, com plasticidade da natação, com a rapidez à flor da pele do vôlei, com o amálgama sem fronteiras da arte com o esporte, tudo já abençoado pelos Deuses do Olimpo, e que um dia foi novidade.
Reparem o que está acontecendo com os atletas brasileiros. A maioria de medalhistas que tem regido as emoções de nossas madrugadas, tanto quanto os perdedores por um triz, são brasileiros acostumados a tocar a vida aos trancos e barrancos, como bem definiu Darcy Ribeiro a História da nossa estranha civilização.
Assim vamos nós. Treinando nos açudes, surfando em tampas de isopor, remando contra a maré, correndo contra a lógica da perfeita preparação. E dando certo. São os novos tempos.
Nenhum contraditório aos campeões dotados de condições favoráveis, como a admirável e talentosa família Grael, que, parece, os filhos já nascem no mar e com uma medalha no peito. Tudo é aceitável. O próprio Lars Grael declarou num programa de TV, que é preocupação do Comitê Olímpico Internacional chegar junto com a juventude, trazendo para o Olimpo a descontração, a informalidade e a naturalidade dos esportes que brotam na turma que está vindo aí, batendo recordes de personalidade e naturalidade.
Até a linguagem evolui.
Ontem mesmo a comentarista do Sportv Karen Janz, bicampeã mundial de skate, mandou um “ela põe a xereca na mesa!”. Natural que fale assim. É jargão. É conexão entre os seus. É a dinâmica da língua, que tempos atrás definia chato como piolho que dá no púbis. Hoje chato é chato, nada mais do que chato.
É possível que a fala de Karen tenha chocado. Há os que tenham se escandalizado com a chamada “chulice” da expressão. Há os que tenham vibrado com a reparação que a expressão traz, já que sua origem é “botar o pau na mesa”, como se a mulher para se afirmar precisasse ser homem.
Resumo da ópera: o novo sempre causa estranhamento até deixar de ser novo. Mas é um caminho sem volta. Não sei avaliar se Karen foi rompedora, ousada ou apenas moderninha, o tempo dirá. Mas sorte dela que Galvão Bueno não estava ao seu lado. Imaginem o chilique.

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