A VIDA MARÍTIMA

De todas as sensações que o mar me provocou, a de evasão sempre preponderou. De evasão algo eufórica e algo disfórica, melancólica, um movimento imaginado e mesmo até desejado que amplia os limites do real e da fantasia. Essa evasão talvez venha de um aspecto simbólico múltiplo: o mar simboliza a geração da vida, mas por meio da indefinição da forma e da mutabilidade. Informidade e metamorfose não seriam somente a vida predefinida, em gestação, mas seriam, pelo contrário, as próprias características dela. O mar é, simbolicamente, a vida da qual nos esquecemos e deixamos de viver, a saber: a vida múltipla, metamorfa, mutável, sem definição, sem forma. Essa multiplicidade e essa mutabilidade não são o tempo todo regadas pelo sol, mas são também abraçadas pelas sombras e pela angústia noturna. Ora calmaria ora tempestade, em uma primeira falsa imagem binária, de alternação, na verdade as ondulações da vida seguem um curso indefinido, volúvel, inconcluso, interminável. A vida desorganizada, assignificada, dessujeitada. O corpo sem órgãos, como diria a dupla francesa de colegas filósofos. A poesia é uma via de acesso (sempre tensivo, com necessário fôlego, resfolegando, se afogando, gaguejando, novamente respirando) a esse corpo marítimo, sem órgãos, com a animação de um complexo de imagens que performam ou simulacram a saúde dos corpos e do espírito atlético, desafiando a doença do biopoder a que são, geralmente, assujeitados no plano propriamente institucional esportivo e de competições. A poesia é o corpo atlético, institucional, em sua versão sem órgãos, ou seja, em sua versão mais salutar, no qual a vontade de potência potencialmente suplanta a vontade (ou assujeitamento) de (bio)poder, jogando com algumas peças e dispositivos do filósofo alemão e de outro francês.
O brasileiro Ítalo Ferreira fez história com seu corpo em cima de uma prancha, vontades de potência e de poder acionadas, agenciadas, ondulando, subindo e descendo, caindo e se reerguendo, a organização da técnica desafiando a desorganização da vida, a neutralizando, para depois se engolfar nela, forjando a espécie possível de profunda unidade que um atleta olímpico tem de realizar. O outro, o adversário, na vastidão marítima, é o outro do outro, enquanto os outros do eu vivenciam suas próprias multiplicidades, seus próprios percursos, suas próprias viagens, se iluminado na tensão de uma luz projetada por uma identidade que, engendrada na tensão, nunca se dissolve, desejando se dissolver, nunca se desforma integralmente, desejando se engalfinhar na desformidade, na informidade da vida, sem predicativos e predicações. Transformados, os outreus espargem nas areias as últimas réstias goticulares aquáticas para institucionalizarem uma identidade que oficializa o ouro do sol no brilho das águas em uma medalha, ouro já nostálgico de imagens que, mesmo que por um ínfimo momento, puderam sonhar em perder a “substancialidade”, vivendo uma vida própria, ou vivendo a própria vida.
Sou da poesia, dessa via de acesso, mas, quando criança, tive uma prancha. Desejoso de evasão, euforamelancólico, mas com receio de viver a vida do mar em minha própria vida, surfei nas areias enquanto a vida estava defronte, ondulando voluptuosamente como um secreto, iniciático e dionisíaco culto feminino, andrógino, bigênero, multigênero ou agênero. Em primeira instância, a impressão imagética é de deixar a vida passar. Mas o que estava fazendo era uma viagem vivaz, era viver uma vida imanente e evadida sem deslocamento evidente. Estava criando imagens, um complexo imagético, um sentimento, um espírito, estava chafurdado nas areias, profundas, vastas, tanto quanto o mar, um mar de areia, um mar terrestre, estava vivendo o falseamento da construção da vida, o falseamento de toda vida, toda a vida falseada, mesmo, talvez, a do mar, em toda sua autenticidade. Também vivi o sonho das imagens, de quase viverem por conta própria, também vivi o sonho do corpo sem órgãos, sem sair de casa, mas até nossa casa é estrangeira, o eu nunca está na própria casa, ou nunca está adequadamente a senhoreando.

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