Decathlon

Vivi minha adolescência nos anos 80, para muitos uma das mais importantes e revolucionárias décadas da história cultural do nosso Brasil: momento em que pudemos, finalmente, respirar ares democráticos, represados de forma autoritária há muitos anos. Infelizmente, hoje esse atributo está em xeque, tendo em vista que as pesquisas mostram que parte considerável da minha geração foi e está sendo, a grande responsável pela situação política que estamos enfrentando.
Voltando no tempo: em meio às tardes divididas entre as aulas de Educação Física (sim, eram no contra turno escolar e divididas em turmas dos meninos e meninas) e cursos de datilografia (sim, éramos obrigados a fazê-lo, pois nossos pais diziam que era para garantir o nosso futuro, facilitando a entrada no mercado de trabalho), jogávamos Atari na casa de algum amigo financeiramente afortunado. Aliás, vocês sabem o que é datilografia? Meu receio é de que nem os ‘cringes’ millenials a conheçam. Nada que um googlada não resolva.
O videogame, uma grande inovação tecnológica, chegou com tudo ao universo infantil. Jogávamos, na medida das trocas e empréstimos temporários, River Raid, Asteroides, Pitfall, Space Invaders, Pac Man, Enduro, Seaquest, Missile Command, Keystone Kappers, Moon Patrol, HERO, Berzerk, Frogger, Jungle Hunt, Mr. Postman… Mas o que nos tirou o sono, em determinado momento, foi o Decathlon. Esse jogo nos aproximava da sensação de estarmos participando dos Jogos Olímpicos, talvez pelo fato d’ele reunir uma quantidade variada de provas, que exigiam, literalmente, o melhor das nossas habilidades técnicas e físicas. E a cada esforço, éramos recompensados com alguns pontos que se somavam, para, ao final, nos sentirmos no pódio. Pena que não existia essa parte no jogo, então tínhamos apenas que sentir, mas confesso que já era mais que suficiente.
Esse cartucho (sabe o que é isso jovem da geração Z?) foi, por um curto espaço de tempo, o mais cobiçado entre nós. Nasceu raro, eram poucos os que o tinham, por um simples e impactante motivo: não existia um possuidor desse objeto do desejo que não tenha quebrado rapidamente seus dois controles, que, por sinal, só depois viemos a saber que se chamavam, na verdade, joysticks. O joystick do Atari era muito interessante para nós e extremamente simples para os padrões dos jogadores e jogadoras do século XXI, composto de apenas uma manopla grande, que podia ser envolvida por todos os nossos dedos ao fecharmos a mão e, pasmem jovens, tinha apenas um botão, e, obviamente, vermelho – o único ponto colorido no controle todo preto.
O jogo do Decathlon era insaciável por controles. Para fazer nosso quadriculado avatar (este nome não existia na época, que fique registrado) correr, era preciso fazer movimentos repetitivos com a manopla para os lados, friccionando com muita velocidade o controle. Quando mais rápido, mais veloz. Além disso, tínhamos uma barra que servia de referência para medir a intensidade dos nossos movimentos, junto ao progressivo aumento do som ritmado dos passos do nosso corredor virtual.
Correr os 100 metros rasos era muito excitante. Colocávamos o controle entre as pernas de modo a obter uma boa base de apoio e, ao sinal da largada, começávamos a frenética fricção no símbolo fálico que se assemelha a manobra do controle. Vista de costas essa cena por um adulto desavisado que entrava na quieta sala podia soar um tanto constrangedora, para ser bem sucinto, para não dizer sincero.
Algumas técnicas eram acrescidas para aumentar hipoteticamente a velocidade: curvar o corpo sobre o controle; colocar a manopla na concha feita com a palma de uma das mãos; ou a mais potente, torcer e morder a língua, deixando-a exposta, pendendo fora da boca, e quase a cortando com os dentes quando apertávamos o botão para, depois da corrida, saltar em distância, lançar um dardo, saltar com vara, ou mesmo, correr e saltar na prova de 110 metros com barreira.
Confesso que essas técnicas de nada adiantavam na corrida de 1500 metros. Essa prova era a mais temida e odiada. Eram inevitáveis as câimbras. Na verdade, era comum roubarmos do jogo. Atenção: não roubávamos no jogo, mas sim do jogo. Criávamos, de forma subversiva, estratégias para terminar o jogo de Decathlon, fazendo da corrida de 1500 metros, uma corrida de revezamento. A cada 400 metros, ou até quando o outro aguentava manter sua performance de friccionar a manopla no meio das pernas, trocávamos de friccionador.
Esse burlar a regra era consentido, nunca foi visto por nós como uma forma de trapaça. Pelo contrário, era até compreendido como atitude de rebeldia, pois era absurdo pensar como alguém poderia ter programado uma prova tão longa, literalmente de resistência.
Falávamos em nossas rodas de análise crítica, já naquela época, que a prova de 1500 metros no Decathlon foi criada apenas para que a Atari pudesse vender mais controles. Cada recorde batido era um controle abatido.
Devo confessar que, se essa foi a intenção dos fabricantes do videogame, conosco, o tiro saiu pela culatra. Jogamos intensamente Decathlon, mas apenas durante um tempo equivalente a duração das Olimpíadas. Depois ficamos quase um ciclo olímpico sem jogar nenhum outro jogo para adquirir novos joysticks.
Por esse motivo, mais do que justo, o cartucho do Decathlon foi banido por decreto de nosso clube de jogadores de videogame, para o bem da continuidade da exploração desse encantador e perigoso novo virtual mundo a que estávamos embarcando.

Alcides Scaglia

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