O TEMPO PERDIDO

Em 2012, Rafa tinha sete anos e embora não conhecesse o esporte pelo nome, adorava os 100 metros rasos. Ele conseguia ver, na televisão do bar, uma corrida quase instantânea de homens e mulheres com pernas muito fortes. A sorte é que o tempo até a linha de chegada era um pouco menor do que aquele em que o dono do bar o tocava dali. Dava para assistir. Ele torcia sempre para quem estava em segundo. Às vezes dava certo. Vibrou quando ganhou um que vinha lá de trás. Ouviu alguém dizer que tudo aquilo acontecia em Londres. Não sabia onde ficava. Em 2016, Rafa trabalhava no seu ponto de sempre, no sinal que já havia virado o seu monumento. Mas sua cidade estava diferente e os gringos de sempre agora pareciam outros, mais animados. Havia uma profusão de cores e bandeiras. Uma movimentação. Ah, sim, os jogos. Aqueles jogos. Ele que quase nunca ia à praia, achou que era o momento. Seguir as bandeiras tremulantes dos turistas. Não queria gastar na condução o pouco do que ganhou vendendo as balas, sua mãe ia dar bronca, mas algo o empurrou, como um desejo. Desembarcou em Copacabana e confirmou suas suspeitas. As coisas estavam acontecendo ali. Rafa era baixo, não tinha crescido muito nos últimos quatro anos, então era difícil enxergar alguma coisa. Milhares de pessoas e uma arena lá na frente. Soube que as Olimpíadas aconteciam a cada quatro anos. Descobriu que na praia também eram dadas as tais medalhas. E que eram de ouro! Dessa vez foi tocado no ombro por um segurança, indicando o lugar “mais para lá”, mas antes, conseguiu pegar uma bandeirinha no chão. Uma bandeirinha com cinco círculos. Colocou em um dos cantos da sua caixa de balas e acabou vendendo bem nas imediações. Hoje, depois de quatro anos, Rafa continua observando. Sabe que é tempo dos jogos. Ouve nas ruas. Alguém sempre comenta. Parece que teve até um baile na favela. Sente saudade de quando vendia balas e ainda morava lá. Com sua mãe. Hoje, seu ponto para dormir é em frente a um bar, outro bar (às vezes junta moedas para um café com leite, entregue na rua, porque não permitem a sua entrada ). Na televisão ligada desde cedo, uma moça linda dança, um anjo negro, ele pensa estar sonhando. Parece com sua falecida mãe, talvez o sorriso, ou o gingado, talvez aquela presença de alguém que tem tudo de uma só vez: carne, osso e alma. Na tela, apesar da falta de treino ele ainda sabe ler, a data dos jogos é do ano passado. Que coisa. Será que ele perdeu algo? Será que confundiu a contagem? Tanto faz, todos os dias, semanas, meses e anos parecem iguais. E por falar em tempo, o tempo vai virar, vai fazer frio histórico e vai ser preciso um cobertor. Não sabe como conseguir, então deixa o pensamento seguir junto dos passos que passam perto do seu rosto. Enquanto isso, na televisão, a cobertura das Olimpíadas celebra mais uma medalha. Parece que é de um americano. Tudo bem, o Brasil está em 20º lugar no quadro geral. Está indo bem também.

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