Bravo, “brabo”!

Éramos uns 30 moleques sobre aquele tatame. Pesos, alturas, idades e estilos diferentes. Faixas branca, cinza, azul, amarela formavam a maioria. Tinha uma meia dúzia das outras, como a laranja e a verde. Uma roxa. E uma preta, do aluno que auxiliava o sensei.

Mestre Okano falava pouco e baixo. Raramente sorria. Quando o fazia, não emitia nenhum som. Eu sabia que sorria porque via os seus dentes. Para ensinar, equilibrava as forças entre todos. Você com você; vocês quatro naquele canto; faixa laranja com faixa laranja; a verde pega a roxa. Por isso, aprendíamos. Ichi, ni, san, shi, go… arrumar o kimono, repetir a pegada, o golpe, a queda, a imobilização. O caminho suave é árduo, gente!

O tempo passou. Muitos desistiram. Eu, inclusive. Mas, quem diria, um entre nós, o menor em estatura, levezinho, o qual chamávamos de “Brabo”, chegaria tão longe, mas tão longe, que o veríamos lutar um dia, pelo país, na telinha.

Sua maior conquista foi a medalha olímpica. Para chegar lá, venceu a falta de estrutura, a má preparação, as lesões, a Covid, o voto impresso, a incerteza, o egípcio, o mongol, o italiano, o israelense.

Quando venceu de vez, chorou. Todos choramos. E sorriu. Nós também. Lembrou-se da mãe, sua grande incentivadora, da luta para chegar ali, do quanto apanhou e até do seu estado natal. Só não revelou o apelido. Mas todos viram. Também pudera. Bravo, “brabo”!

Ao final disse, não como um político, não distraidamente, não dá boca pra fora, mas como um brasileiro: “A garra que eu tenho é a mesma do povo”. Eu acreditei. Pensei nos milhares que acordam sem ao menos ter dormido, nos retirantes, nos desabrigados, nas tantas mães solteiras, nos pés descalços, na desigualdade. Como um país tão sórdido como esse tem sido ultimamente produz um “brabo” desse, com esse coração, com essa atitude, com esse sentimento? Também senti esperança. Mas do verbo esperançar, que, como disse aquele educador que virou moda atacar, mas do qual a maioria de nós se orgulha, significa ir atrás, não desistir, não se conformar, ser capaz de buscar o que é viável para fazer o inédito.

Como tu fez, tchê!

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