O CAMPEÃO DE NADO CACHORRINHO

Eu sentia muito frio. Estar apenas de sunga às 7 da manhã era, de fato, um sacrifício à altura da glória a que o esporte me levaria. Eu devia ter pouco mais de 13 anos, naquele 1965, e nunca tinha pensado em ser um atleta, até que me vi jogado naquela piscina com uma pequena prancha de madeira que me faziam arrastar de borda a borda, por várias vezes, todas as manhãs. Não era apenas exaustivo, era torturante, e depois de algumas idas e vindas, eu já não sabia mais se estava indo ou voltando.
Tinha um instrutor chamado William que, até então, eu só conhecia como nome de um creme de barbear que meu pai usava. Ele, com uma prancheta onde anotava coisas que só ele sabia, e um cronômetro que nos amedrontava, gritava ordens da beira da piscina e a gente resfolegava para atendê-las. Eu ia e voltava batendo vigorosamente as pernas, tomando o cuidado de nunca deixar os joelhos se dobrarem, para dar o necessário impulso na travessia, que repetia até não sentir mais as pernas, o corpo, o cansaço e nem mesmo a raiva que sentia do creme de barbear que nos gritava, sequinho e agasalhado, lá de fora.
Hoje, relembro essa época com uma certa dose de saudade e até acho que a raiva que aqueles treinos me despertavam me forjou um temperamento mais afeito aos desafios. Vencê-los é uma forma de dar uma banana para quem de mim duvidou. Mas as pernas me doíam muito após a maratona com a pranchinha que, só para piorar a coisa toda, era de madeira e afundava. Assim, tínhamos que nos esforçar, além de tudo, para mantê-la na superfície. Era para fortalecer braços e antebraços, nos ensinava o creme de barbear agasalhado. Um dia consegui ler os papéis em sua prancheta: “Antônio: corrigir ângulo da segurada”. Nem precisava, no dia seguinte ele me chamou a um canto, antes que eu subisse à plataforma da raia para o treinamento. “Você está deixando a prancha muito inclinada, assim força seus braços mais do que o necessário…” Era o que me faltava. Além de todo o esforço para nunca dobrar os joelhos, tinha que manter a porcaria da tabuinha no nível certo na superfície. As dores agora só aumentaram. Apesar da pouca idade, já sentia dores lombares e nos braços a ponto de nem conseguir dormir à noite. Comecei então a utilizar um artifício mental para aliviar a tensão, o cansaço e as dores dos treinos diários: nadava para lá e para cá, sempre cantarolando mentalmente a música “A hard day’s night”, dos Beatles. Era ele apitar e eu me jogar na água com os quatro cabeludos na mente. Isso realmente me ajudou. Eu me concentrava na letra da música e, assim, esquecia das dores que me causava o esforço para manter pernas esticadas e braços retos. Foi um longo ano de treinamento, de que me recordo apenas como mais de 300 dias indo e voltando. Em 12 meses, pelos meus cálculos, eu não tinha chegado a lugar nenhum.
Mas estávamos chegando ao momento mais esperado por todos, especialmente pelos nossos pais. Teríamos o tão anunciado e tão valorizado em cartazes colados por todas as paredes do clube: oTorneio de Natação Infanto-Juvenil do Fluminense. Lembro que fui participar dessa competição com a mais absoluta certeza de que estaria ali apenas para cumprir o último ritual. Minha família, reunida nas arquibancadas, apenas teria uma comprovação da minha inaptidão para os esportes. O que eu já provara, com sólidas demonstrações, tanto no futebol como no judô. Mas eles estavam lá, felizes e cheios de expectativa. Eu, ali da plataforma da raia 5, podia vê-los, acenando para mim, minha irmã sorridente e orgulhosa de mim. Aquilo me deixou ainda mais desesperado.
Quando o juiz da prova apitou, me joguei, na água e comecei com o “A hard day’s night” e só sei que bati as pernas com violência quase animal e movimentei os braços como se quisesse esvaziar aquela piscina. Mais ou menos pela metade do percurso, percebi que estava sem fôlego e parei de meter a cara na água, exigência básica do estilo de nado crawl, e comecei a nadar com a cabeça para fora d’água, sem me dar conta de que estava em uma competição oficial, um momento olímpico. Esqueci a minha família lá nas arquibancadas, esqueci a competição, apenas pedia ajuda aos meus amigos, John, Paul, George e Ringo, para me tirarem o mais depressa possível daquele martírio.
De repente a borda da piscina surgiu à minha frente e eu toquei nela, aliviado. Fiquei ali, recuperando o fôlego, olhando fixamente para as minhas próprias mãos, entre cansado e envergonhado. Passaram alguns minutos sem que eu me desse conta da barulheira que tomava conta das arquibancadas, sem entender o que estava acontecendo. Vi o meu instrutor com nome de creme de barbear se aproximar da borda da piscina, com os punhos cerrados para o alto, e sorrindo para mim. Ele me ofereceu a mão para que eu pudesse sair da piscina e logo fui cercado pelos diretores da prova e por alguns colegas das aulas de natação. Parecia que todos estavam felizes com alguma coisa de que apenas eu não tinha conhecimento. Vi meus pais olhando para mim, meu pai estava visivelmente orgulhoso. Minha mãe abraçava a minha irmã e elas saltitavam. Foi então que compreendi que havia vencido a competição. Ainda meio zonzo, fui levado para a parte mais alta de um pódio de madeira pintado de branco e com números em vermelho, onde ocupei o número 1. De troféu, apenas uma garrafa de Coca-Cola, que logo ergui acima da cabeça, num gesto impensado e intuitivo.
Agora eu sabia: naquele dia me tornei campeão infanto-juvenil de nado cachorrinho, pelo Fluminense. E encerrou-se ali a minha brilhante carreira atlética.

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