Uma Olimpíada para chamar de minha

Imagine os melhores atletas do mundo jogando, correndo, nadando, lutando, só para você assistir, vidrado, a poucos metros da ação, sem ninguém interferir, nem falar, nem torcer. Nem torcer. Nem torcer.

Pela primeira vez na história é possível assistir a todas as disputas, isso mesmo, 100% dos eventos. Ao vivo. E o detalhe: sem locutores, nem comentaristas ou repórteres, nada de ex-atletas explicando coisa alguma. Nada além da transmissão estéril do comitê olímpico internacional.

Há o silêncio, quase absoluto, sombrio, irrompido apenas por gritos localizados, de treinadores e outros poucos. Não, não há torcida em Tóquio, salvo raras, espaças e comportadas exceções. Não há torcida.

Há o som do esporte.

O quique da bola, as braçadas e batidas nas águas, o estampido seco, forte e decidido, do salto da pequena jóia da ginástica. Os gritos dos atletas, alguns na fúria do clã, a força vinda do grupo, com palavras de apoio e de cobrança. Outros, isolados em uma arena ou raia, cobram a si mesmo, batem no peito, urram e persistem, mesmo após o erro irrecuperável.

Os heróis estão sós, com seus objetivos, sonhos, recordes, dores, angústias e medos. Sem torcida.

E nós também estamos sós, no meio de um pesadelo lisérgico que por vontade sabe lá de quais deuses, tornou-se uma realidade, isolados, cansados. Sem locutores, sem comentaristas.

Mas, contudo, porém, todavia, entretanto, temos as olimpíadas. Temos a internet e seu voyeurismo delicioso para prestar atenção em cada detalhe de cada atleta, nos corpos perfeitos ou deformados pelo esforço extremo, nos movimentos captados em minúcias e repetidos quadro a quadro, pixel a pixel, para um luxurioso deleite estético. Podemos ir além, entrando furtivamente no mundo que o campeão cria em torno de si, onde está a cabeça do nadador antes de entrar na piscina, o que toca no airpod do skatista antes de pular no shape. Você escolhe o canal, você faz a narrativa.

Os Jogos Olímpicos de Tóquio são seus. Para olhar o que quiser, para encontrar o que tiver que descobrir. Dá para assistir uma partida de badminton inteira e ter vontade de praticar. Dá para imaginar de onde vem aquele voluntário deitado de cara para a água, segurando a canoa antes da largada e no momento seguinte, na arena de tiro, ter uma epifania e vislumbrar que barrigas como a sua são bem-vindas entre os campeões da pistola.

Tóquio é a olimpíada da crônica, do olhar, do narrar o que só você enxerga. Tóquio 2020, acontecendo em 2021, é um estranho prazer. Estou sofrendo de olimpismo crônico.

PS: Os jogos estão sendo transmitidos online na íntegra pelos canais Sportv na internet ou no aplicativo. Sem torcida, sem narrador e sem comentaristas

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