Hora do Recreio

Trriiiiimmm. Toca o sinal, é hora de se alinhar para entrar na aula de Educação Física.
As meninas se alvoroçam. Correm para pegar um lugar na fila e disputar quem vai ser a primeira a ir para a quadra. O quê? Não estão na escola?! É uma competição olímpica? Como assim?

Mas aquela japonesinha ali mal saiu das fraldas…oi? Ela é uma das favoritas?
Aquela outra, ainda mais mirradinha também tem chances de medalha? É brasileira, é?

Tem outra japonesinha fera e mais outra. 16 anos? Não brinca! Quer dizer, elas estão lá brincando, olha só, a gordinha americana só cai e dá risada. E aquela outra ali, de calças laranjas largas, pele bronzeada, só fica zoando, fazendo dancinha, é uma palhacinha.

Tem uma ou outra moçoila mais crescidinha ali, mas não tanto né…olha a cara de novinha. Deve ter o quê, 19, 20 anos? São as monitoras?

Ah, finalmente uma adulta, outra americana, essa tem 36 anos. Já entendi, é a tia do rolê. Vai tomar conta da turma, ensinar os truques e macetes do esporte. Não? Ela é quem vai aprender com as meninotas?

Que raios de esporte é esse? Skate street? Primeira vez nas olimpíadas, entendi. Mas de onde inventaram essa categoria, nas aulas de ginástica do primário? O quê, nas ruas? Mas essas menininhas ficam nas ruas treinando? Oi? Cadê os pais delas?

Começou a prova. Meu Deus! Cuidado bebê! Não pula aí não menina! Vixe, vou fechar os olhos.

A chinesinha fofinha ralou o joelho. A filipina palhaça saiu mancando. Sangue escorrendo no cotovelo da canadense. Cadê o juizado de menores?!

O que tá acontecendo? As grandinhas estão saindo, as chaveirinhos vão ficando. É isso mesmo, pode Arnaldo?

Trrrrimmmmm. Toca o sinal novamente. É hora do recreio. Mas agora as meninas ficaram sérias, dando entrevistas que nem gente grande. Estou confuso, então a prova era o recreio?

Termina a primeira competição de skate feminino da história das Olimpíadas. No topo do pódio a japonesinha mais fofa-Hello-Kity-sorridente que existe. Ouro merecido pra Momiji Nishiya, 13 aninhos, que fez sua prova como gente pequena: leve, livre, feliz, descompromissada. Dominou a competição com sua graça. Degrau abaixo a brasileirinha filé-de-borboleta-fadinha-simpatia, Rayssa Leal, também no auge dos seus 13 sóis. Prata de bom tamanho, abusada, sem medo, encantadora. Em seguida, bronze para outra japinha, cara de moleca ingênua, Funa Nakayama, 16 anos. Juntando as três campeãs olímpicas, temos uma média de idade de exatos 14 anos, 191 dias. Recorde histórico, absoluto. A turma do sétimo ano deve estar alvoroçada!

Ainda atordoado com uma novidade tão acachapante, fico imaginando o que serão dessas meninas após essas Olimpíadas: vão ganhar aquela nova boneca que a mãe prometeu em troca da medalha? Conseguirão recuperar as aulas perdidas? Haverá emojis suficientes para caber nos perfis sociais das medalhistas?

Daqui 4 anos, em Paris, elas já serão adolescentes grandes! E a categoria, vai se renovar ou vai envelhecer e amadurecer com elas? Eu gostaria de ver sempre o frescor das meninotas lembrando que o esporte olímpico nada mais é que brincadeira de gente grande. Para competir, ganhar ou perder mas, sobretudo, para se divertir, sempre.

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