Panem et butyram et circenses

O celular tocou cedo, mas eu já havia acordado. Esses Jogos Olímpicos estão mexendo com meu relógio biológico.
Jamais com meus hábitos.

Às 7:30 estava à mesa e de olho na televisão. Perto de mim, café com pão. Não o panem desejado, fresquinho, estalando, acolhendo a manteiga (butyrum) que se derrete toda por ele.
Mas uma torrada integral com cereais, como
me permite o sobe-e-desce da taxa glicêmica.

Um tantinho adiante, ao alcance dos meus olhinhos infantis, o circo. Sim, as ginastas olímpicas tem um quê de circenses. É o extremo da habilidade oferecido em trajes coloridos, rostos maquiados, cabelos arrumados para um espetáculo, gestos que arrancam ohs!, ora contidos, ora expressos em palavrões permitidos pelo espanto.

Caraca! (ou como melhor entender). Como podem fazer isso? São pequenas gigantes de borracha, que quicam no chão e voltam para o mesmo lugar.

Tem pirueta? Tem, sim senhor.
Tem salto mortal? Tem, sim senhor.
Tem voos acrobáticos? Tem, sim senhor.
Tem performances que a física duvida? Tem, senhoras e senhores.
Tem emoção? Ora se tem.
Tem prata para Rebeca de Guarulhos, que se abraça às medalhas que chegam em novos endereços, que vêm para as ruas, para as senzalas contemporâneas, para Imperatriz e Baía Formosa, para o açude nas Minas Gerais, improvisado em piscina olímpica para treinamento do jeito que dava para ser.
Tem sorrisos, nós nas gargantas e aguaceiros que brotam dos olhos deste Brasil acostumado a chorar de tristeza, desencanto e medo.

Hoje tem baile na favela.
O circo Brasil tirou instantes de alegria da cartola.

“Uhus!” a todos os artistas das ondas, das quadras, do cimento, das pistas, dos gramados, dos tatames, das águas, do chão e do ar, que contrariando a lógica de uma civilização que historicamente maltrata seus cidadãos, dão piruetas, dribles, cortadas e ippons
nas adversidades.

Sem querer ensinar Pai Nosso aos sensíveis vigários que frequentam o “Crônicas Olímpicas” – ou chovendo no molhado – vale lembrar que o jeito Panem et Circenses era operado pelos líderes romanos para manter a população fiel à ordem e à devoção ao estabelecido.

Nesse quesito, pouco mudou a História, a não ser os saiotes e as sandálias trançadas pelas canelas. O circo de hoje existe. Não deixa de ser emocionante, lúdico, atraente, necessário, energético. O espetáculo é bem-vindo, os artistas merecem todos os aplausos e nós merecemos suas alegrias.

Mas o pão bem que podia estar estalando em todas as mesas. Fresquinho a toda hora.

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