Chorar e agradecer

Para quem conquista medalhas, Olimpíadas são o tempo das alegrias. Para aquelas (es) que não sobem ao pódio, é o tempo de receber e prestar honras por terem, apenas, participado. Elas (eles) levam para casa a nobre atitude que, a cada quatro anos, ecoa como reafirmação do espírito dos jogos.
Há duas imagens síntese desse espírito que foram repetidas inúmeras vezes em Tóquio. A primeira: é o choro, que pode ser resultado tanto da vitória quanto da derrota. Há quem chore escondido ou de forma contida e há quem se valha do espalhafato. Não importa o modo, importa o significado do choro e, neste sentido, ele se transforma em símbolo.
No caso de quem perdeu, o chorar demonstra o quanto valia a conquista de uma medalha. Foi essa valoração que a (o) impulsionou a se dedicar quatro anos da vida nos treinos. Simultaneamente, o choro de quem perde valoriza também e ainda mais a conquista da (o) oponente – e, no fundo, trata-se de expressão de agradecimento. Quem ganhou, viu os esforços do treinamento darem resultado e, naturalmente, agradece o prêmio.
A segunda imagem marcante dos jogos mostrou tanto as (os) vencedoras quanto as (os) que não conseguiram superar as (os) adversárias juntando as mãos em forma de prece e curvando o corpo em sutil movimento, a fim de cumprir o ritual de agradecimento. O gesto tornou-se ainda mais significativo em um país acostumado com tal rito, pois o pratica exaustivamente todos os dias.
Entretanto, o mesmo ser humano que protagoniza atos de nobreza, como o choro e o gesto de agradecer, é capaz, também, de cometer indignidades como não saber ganhar ou perder, por exemplo. Ou ter ambição ou competitividade excessivas que extrapolam o objetivo das competições.
Contudo, no encerrar de mais uma Olimpíada, e ao final deste trabalho de escrever com alguma graça, crônicas que seduzam leitores, não são as sombras dos humanos que me interessam, mas as luzes expressas quando uma (um) atleta chora (seja ganhando ou perdendo) e nas mãos postas em forma de prece e o leve movimento do corpo arqueando-se para frente – como esta bela foto do brasileiro Alison dos Santos, bronze no atletismo.
Duas imagens de choro de brasileiros me marcaram muito. O do vencedor do ouro no surf, Ítalo Ferreira, e de Maria Portela, ao ser eliminada em prova de judô. Ambas emocionantes, uma linda; outra, triste. Como disse, ambos valorizam a conquista e embutem agradecimento.
Entretanto, nada mais bonito na Olimpíada do que ver tanto o vitorioso quando o que não alcançou o topo repetindo o gesto que os japoneses usam para agradecer. Ele contém humildade, educação e respeito ante ao sagrado – afinal, nós atribuímos sacralidade aos jogos; daí o choro, daí o agradecimento.
Quem pratica o gesto diariamente sabe que agradecer faz bem ao espírito.
Quem mimetiza o gesto sabe que agradecer cura.

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