SIMONE BILES E O CANSAÇO

Apesar de apontada como favorita à medalha de ouro, a ginasta norte-americana Simone Biles decidiu se retirar, após uma avaliação médica adicional, do final da competição individual em nome de seu bem-estar emocional. Ela já havia se retirado da disputa por equipes após uma grande falha no salto. A pressão que sofre por ser considerada a maior estrela olímpica dessa edição a afetou profundamente. Vista de fora, a atitude pode realmente soar como descompromisso, falta de responsabilidade, como até mesmo certa indiferença ou desleixo. Ela afirma que as Olimpíadas deveriam ser divertidas e não sufocantes emocionalmente. Quem lê ou ouve isso quase automaticamente imagina que uma atleta dessas desconhece a própria profissão e pensa que está em uma mera balada comum, ou então que está completamente despreparada. Mas a verdade é que a pressão psicológica que atletas de alta performance sofrem não é saudável, dentro e fora de Olimpíadas. E a verdade ainda mais incisiva é que a pressão psicológica que todos nós sofremos tem sido cada vez mais prejudicial a nossa saúde mental. Dentre as diversas classificações no tocante à configuração social na qual vivemos, um conceito importante é o da sociedade do cansaço, criado pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Nessa configuração social, ou nessa leitura de nossa sociedade, somos como tiranos de nós mesmos. Mesmo após a queda de uma instância dominadora unificada, não surgiu no horizonte uma expectativa maior de liberdade (Foucault, a seu modo, também analisou essa condição), pois a própria liberdade coincidiu com a coação, com a coerção de maximizar o desempenho. Enfim, a sociedade do cansaço é a sociedade do desempenho acima de tudo, o que pode gerar atritos, abalos e desestabilizações psíquicas que não estavam calculadas no projeto, ou melhor, estavam se tais desestabilizações forem, quando há eficácia no sistema – e na maioria das vezes há – subsumidas enquanto elementos da engenharia psíquica que reforçarão o comportamento paradoxal de uma liberdade coercitiva, ou de uma livre coerção. Nós, se o sistema for completamente eficaz, adotaremos a postura de nos entregarmos voluntariamente ao nosso próprio processo de maximização do desempenho a qualquer custo, em uma nova etapa social da servidão voluntária e do heautontimoroúmenos em uma concepção baudelairiana. Somos autoempreendedores psíquicos, “senhores” e escravos de nosso trabalho, sadomasoquistas (mas não BDSMers) lustrados por uma camada discursiva de eficiência, compromisso, responsabilidade, motivação. Como infere Lucas de Melo Prado no artigo “Tiranos de Nós Mesmos: a Servidão Voluntária na Era da Sociedade do Desempenho”, essa “autorreferencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercitivas que lhe são inerentes, se transforma em violência”. Violência psíquica, subjetiva, atrelada à violência constitutiva social.
O sistema tem suas panes, e a pane no plano individual mais evidente (espetacularizado) nesse momento é a da estrutura psíquica de Simone Biles. Ela conseguiu, com ajuda médica, perceber, ter consciência de que seu funcionamento necessita de descanso, para que mais tarde o desempenho e seu cansaço assumam o posto nesse ciclo ad infinitum (como quer fazer acreditar toda metafísica cultural e social) de pane e conserto, falha e reativação. Eu, por meio da poesia, me interesso cada vez mais pelas falhas, pelo desengaño, pelo desconcerto e avessismo do mundo, pela carnavalização. Na sociedade espetacular do desempenho e do cansaço, ao menos alguma consciente e apologética simulação poético-sensória do ócio (criativo ou mesmo não) e da preguiça é uma espécie de resistência. Uma resistência que também, perigosamente, pode ser capitulada, assim como a ilusão das Férias, mero período de descanso em nome do reforço do desempenho, da eficiência e do cansaço. O desafio de tal resistência é maior do que qualquer desafio olímpico que se possa imaginar. O que Simone Biles realizou e produziu poucos campeões olímpicos seriam capazes de fazê-lo, mas o que ela não realizará, do modo como não realizará, se negando a fazê-lo, seria ainda mais difícil. Ao menos essa coragem e consciência vão além de quaisquer Olimpíadas.

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