OS JOGOS, OS CORPOS

Creio que não há como realmente saber o quanto existe de prática sexual entre os participantes de eventos esportivos de grandes proporções. No caso olímpico, algumas fontes dizem que quase não existe, pois a concentração perante o objetivo de boa performance acompanha toda a estadia dos atletas, enquanto outras fontes dizem que existe quase um campeonato paralelo repleto de façanhas sexuais. Me recordo, por exemplo, do caso Ingrid Oliveira, esportista dos saltos ornamentais que, durante a estadia olímpica no Rio, transou, foi “denunciada” pela companheira e, por fim, foi, por um bom tempo, vítima de uma verdadeira conspiração misógina que a relegou a uma espécie de ostracismo em relação ao mundo desportivo, tendo de trabalhar como ambulante no Carnaval, ou seja, tendo de encontrar meios de sobrevivência que nenhuma ligação tinham com o esporte. Ele podia ser chamada de gostosa, de inúmeros epítetos libidinais, sejam soft ou hardcore, pelos telespectadores, mas ela mesma, exercitando a autonomia de seu corpo, não poderia transar. Paradoxos do conservadorismo. Ou paradoxo algum, afinal, para o conservadorismo, muitas vezes a autonomia do corpo é um problema sério.
Imagino, somente de observar pela TV, que a concentração, por mais treinada, deve sofrer abalos vez ou outra. Esses eventos se parecem com uma plataforma de streaming de corpos adrenalizados e ansiosos submetidos a todos os padrões midiáticos que, enfim, são também, em grande parte, exatamente os exigidos pelo próprio modelo de alta performance: corpos bem desenvolvidos e bem definidos. Em tempos de capitalismo de plataforma, a plataformização tenta atingir os corpos e as relações entre eles em um novo contexto biopolítico. Não resisti, portanto, à metáfora do streaming, sendo as Paralimpíadas as linhas de fuga do padrão.
Pessoalmente, também me recordo de que em campeonatos de karatê minha concentração virava e mexia sofria seus abalos, seus deslizes. Como em um kata, performava um combate interior contra adversários fluidos, dando yuko no desejo, ippon na fantasia, sempre com o perigo de levar waza-ari no coração. Mas o lutador e o esportista devem ser estoicos, se desviando dos desejos? Competições, mais ou menos oficialmente, fazem crer que sim, a não ser algumas competições universitárias praticamente organizadas e realizadas para glorificarem Dioniso no podium.
Infelizmente, há tabus que não permitem o debate mais honesto sobre o exercício da sexualidade (pois não deixa de ser exercício) realizado em contexto olímpico ou de eventos esportivos. O tema pode desequilibrar e deslegitimar as noções de concentração e responsabilidade. Mesmo no futebol brasileiro, historicamente repleto de figuras excêntricas, há uma pressão do “politicamente correto” (em seu sentido mais banal) e os boêmios assumidos estão escasseando, mesmo em termos discursivos. Por isso, quando mencionei o termo “biopolítico”, não pretendi usá-lo pensando em referendar rigorosamente Foucault, pois o biopoder mais exige a enunciação sexual do que a inibe. O imperativo enunciador é mais “adequado” ao comportamento dulcificado pelos dispositivos biopoderosos/biopolíticos moderno-contemporâneos, segundo o filósofo francês. Mas podemos, ao mesmo tempo, perceber a existência de dispositivos plataformizadores de corpos e de relações, como se um dos Big Brothers (há vários, dispersos, mais inconscientes, e não uma unificação consciente do poder), e se a metáfora panóptica ainda for válida, fosse a Netflix, ou a Amazon.
Seja como for, de modo irônico ou não, a sexualidade é sempre perigosa, parece. Ainda mais para as mulheres, sujeitas a ostracismos se forem denunciadas por usarem seus corpos para o prazer erótico, e não para a alta performance no estádio ou na cozinha.

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