NA MAIS PROFUNDA UNIDADE

Ouço muito, toda vez em que haverá um evento esportivo de grandes proporções, principalmente as Olimpíadas, as pessoas ansiosas pela emoção que suscitará. O esporte é sempre ligado à emoção, à dimensão do páthos e nós, brasileiros, estivemos por muito tempo acostumados a vivenciar o esporte (e muitos elementos de nossa cultura) por meio da emoção, ou melhor, do emocionalismo, do exibicionismo emocional excessivo, como fazia o eu poético dos românticos, quer dizer, de certos românticos, de certos românticos de determinadas vertentes do vasto movimento artístico-cultural chamado Romantismo. Nós, brasileiros, sempre fomos, em certo sentido, românticos, inclusive ao romantizar o que não deveria sê-lo: a cordialidade (pobre Sérgio Buarque de Holanda, até hoje não tão bem compreendido) e a política, por exemplo, até em sua propalada descrença. E os esportes. O futebol brasileiro, mesmo que técnico, só recentemente tornou consciente sua técnica, ou assumiu a técnica enquanto técnica. Antes, a técnica era recalcada ou escamoteada pela noção subjetiva de talento inato, natural. Não que tal noção tenha sido destituída, mas a técnica teve que assumir seu posto desrecalcado após tempos vivendo na obscuridade, no armário.
Às vezes a ideia de talento inato é maquiada por difusas dicotomias estilísticas. Nelas, ora a arte fica relegada ao universo da razão ora ao universo da emoção, às vezes, como deve ser, a ambos. Um exemplo é a designação do estilo sutil, bailarino, artístico de Muhammad Ali de um lado e a do estilo “porradeiro”, mais direto de Mike Tyson de outro. O primeiro seria mais “estético” ou esteta, trabalharia mais seu jogo, enquanto o segundo jorraria golpes com muito punch, muito poder de knockout, exibindo um aspecto animalesco, instintual, visceral, enfim, emocional… Outro exemplo é o futebol arte de Neymar (apesar de todas as críticas pelas quais passou e tem passado) de um lado e o futebol técnico de Cristiano Ronaldo, mais frio, calculado, milimétrico, estratégico, quase cabralocerebrino de outro. A dicotomia não é completamente discriminante, é difusa, mas é possível encontrar elementos dessa espécie em críticas e comentários dos espectadores e fãs. Cristiano Ronaldo também é considerado futebolista de arte, assim como Neymar é considerado técnico. Ali também é, igualmente, indicado como um boxeur com punch, agressividade, enquanto Tyson teve seu lado técnico aventado. A verdade é mesmo o borrão não discriminante, ou o entrelugar da técnica, associada à racionalidade, e da emoção, associada à irracionalidade. Mas também estaria restabelecendo outra dicotomia, quase a mesma. Então, reavaliando, na verdade mais verdadeira, técnica e “talento”/emoção, razão e irracionalidade só atuam em conjunto, nunca separadamente, pois a separação não existe, em suma. O que existe é a união, ainda que tensiva. Como na arte, como na música (técnica e feeling ao mesmo tempo), na literatura, principalmente no poema (a valeryana oscilação entre o som e o sentido ou mesmo a jakobsoniana projeção de equivalência do eixo paradigmático no eixo sintagmático).
Esportes e, portanto, Olimpíadas se vencem com toda a autoridade do termo quando paixão e técnica se apaixonam, se treinam, se desenvolvem, se aprimoram. Que os espectadores possam sentir-pensar como essa unidade exalta a glória dos sentidos e da mente, para sentir-pensar com Baudelaire.

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