MÍNIMA PSICANÁLISE OLÍMPICA

Com a dita polarização de opiniões (geralmente isentas da preocupação com alguma argumentação cerrada) no espaço público brasileiro, não poderia ser diferente no caso da participação de nossos atletas olímpicos, que sempre sofreram com o fato de terem de enfrentar os riscos radicais de serem glorificados ou amaldiçoados do dia para a noite perante uma vitória ou uma derrota. Em minha crônica “Simone Biles e o Cansaço”, usei a concepção de sociedade do desempenho e do cansaço para mencionar a internalização das pressões pelas quais uma atleta de alto rendimento pode passar, assim como todos nós, rendendo ou rendidos. Além dessa internalização, os atletas brasileiros têm de enfrentar uma radicalização extrema da pressão de ganharem medalhas pelo fato de cada uma delas ser de máxima importância para um país que não tem grandes resultados finais na contagem, pois participa com investimento muito baixo, fazendo com que o grosso dos atletas viva uma situação de precarização profissional e financeira. Poderia dizer que nossos atletas são heroicos porque ainda conseguem participar e ganhar algumas medalhas, mas não vou idealizar a falta de recursos. Prefiro incentivar a reivindicação de recursos ao invés da ilusão de heroísmo ou, muito aproximadamente, da ideia meritocrática que, no Brasil, escamoteia a profunda desigualdade de oportunidades baseada na igualmente profunda desigualdade socioeconômica.
Devido a essa pressão adicional, que na verdade estruturará a psiqué esportiva de competição no Brasil, o atleta brasileiro sempre estará na iminência da depressão na concepção psicanalítica, qual seja a de “preferir” permanecer na condição castrada, para não admitir a possibilidade da derrota. Os sentimentos de impotência, inapetência e abatimento sempre moram ao lado, ou na “própria casa”. O sujeito castrado e passivo recua, em seu universo psíquico, das provações e das provas, dos desafios, se aliena da via desejante, transforma o estado depressivo em um escudo psíquico. Estou quase mencionando o recalque da castração, mas evitarei tanto freudismo. A depressão traz pobreza imaginária e precarização sonhática. A afetividade depressiva (patológica) é o contrário do atletismo. Ou deveria ser. O atletismo tem de ser o campo da rivalidade fálica (logo não consegui me livrar de Freud), isto é, do enfrentamento, da disputa, de assumir os riscos e desafios. Enfrentamento da perda ocorrida (castração), mas prometo que o freudismo acabou.
O que não acabou, e espero que um dia acabe, é essa pressão externa que é profundamente internalizada pelos atletas brasileiros, a saber: a de levar em consideração cada vitória como salvífica, redentora das competições, da vida brasileira, da nação. Imagino que a estrutura psíquica do atleta brasileiro é fálica sempre na iminência depressiva. Com um governo tão ideologicamente ufanista e ao mesmo tempo empobrecido de, enfim, imaginação (política, social, sexual), incentivador de uma esfera pública despreocupada com opiniões dadas ao sabor do ódio militante, só posso me solidarizar com os atletas em suas vitórias e, principalmente, em suas derrotas, mas em nome do sonho da reinvenção da vida, psíquica e material.

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