CRONIQUETA CARATECA

            Edgar Morin, que centenarizou nesse ano, em um momento de reflexão sobre “a vida da vida”, afirma que a sociedade liberta é aquela que consegue (ou ao menos tenta) transformar conflitos e antagonismos em inventividade, jogo, “competição”, enfim, em liberdade, ou em um regime lúdico que, podemos pensar, (dis)simula, sublima ou mesmo desloca e supera a violência inerente à funcionalidade dos dispositivos sociais. Estaríamos diante de uma profanação ao modo de Agamben, da inoperositá, criando novos usos dos dispositivos sociais ao invés de ser por eles cooptados ou, então, de ilusoriamente tentar extirpá-los. Para mim, o karatê por muito tempo foi uma via de acesso à camada lúdica e, enfim, “profanadora” da existência social, tanto quanto a literatura o foi e o é da existência linguística. Desde muito novo, aos seis anos, tinha em mãos livros que ensinavam posturas, golpes e exemplos de situações práticas de defesa pessoal. Situações práticas que, para quem treinava mimetizando (ou torcicolando uma imitatio barroca) as figuras, eram performances, teatro, gestos que dinamizavam as fronteiras da encenação e da dança, antes de eu me matricular em uma academia de karatê propriamente dita. Karatê shotokan. Naquela época (hoje tenho trinta e sete anos), a violência ritualizada socialmente sublimada do MMA ainda não estava disseminada no imaginário e na prática das artes marciais. Ainda que muitas delas se originassem de um contexto bélico, suas práticas não eram tão midiaticamente full contact quando adaptadas para treino, competição e campeonato, tendo o boxe como uma exceção de grande mídia. Em suma, a transformação dos conflitos em inventividade ainda se instituía em um regime lúdico de menos contato e de mais (dis)simulação. Assim posto, artes marciais milenares têm de lidar hoje com os novos elementos de seu imaginário ou marcas de pressão midiática e de mercado, ora cedendo às demandas midiomercadológicas, ora resistindo a elas e reforçando suas filosofias específicas e práticas corriqueiras tradicionais.

            A tradição do karatê será exposta a partir desse ano nas Olimpíadas de Tóquio (referentes, na verdade, ao ano de 2020). Fiquei bastante satisfeito, apesar de compreender todos os grandes problemas trazidos para a população de um país por meio desses campeonatos de grande proporção, principalmente em um momento pandêmico como o que estamos vivendo. A problematização crítica desses eventos é um tema que precisaria de mais atenção, especialmente no contexto de países mais periféricos, como o Brasil, no qual corrupção e gentrificação de forte escala são procedimentos regulares que muito dificilmente podem ser de, alguma maneira, revertidos. Em termos de esportes de artes marciais, não sou um purista. Por exemplo, karatê em suas raízes e ensinamentos éticos rigorosos e MMA estilo freak show sangrento (um freak show, hoje, para família, quer se queira quer não) me agradam muito enquanto invenção e alguma espécie de liberdade expressiva. Marina Abramović, performers BDSMers como Ron Athey, todo o excesso que manipulam é uma força expressiva autêntica repleta de full contact, digamos assim. Algumas diferenças de princípio serão apontadas por certos participantes da cultura, tais como: a arte performática “faz pensar”, a teratologia do MMA só visa ao lucro. A arte que quer se desvincular da, enfim, arte marcial (de full contact ou não) adota mesmo uma gama mais sofisticadamente heteróclita de “funções”, algumas, diga-se de passagem, pejadas de idealização metafísica. “Fazer pensar” é a metafísica da razão que nega a metafísica da razão em sua origem universal, o cogito cartesiano, para selecionar os contextos ou campos propícios ou possíveis para que ela seja ativada. Ainda bem que existiram escritores como Paulo Leminski, que lutavam com o pensamento, com as palavras e com os membros, desarticulando as instâncias ilusoriamente discriminadas da “luta” e a dicotomia da mente pensante de um lado e do corpo praticante ou agente de outro; desarticulação que todos realizamos, mas que é denegada pelas dicotomias enrustidas.

            Novamente: a tradição do karatê será exposta a partir desse ano nas Olimpíadas de Tóquio e algumas tonalidades da memória (sempre seletiva, como a metafísica da razão das que se querem “altas” artes) coloriram imagens do passado: competições, viagens, sólidas e importantes vitórias, derrotas, conversas filosóficas e descontraídas com professores e colegas de treino. Todas as cores vívidas. Mas não há como me esquecer das cores gestuais que a inventividade dos conflitos proporcionou com os kata, técnicas de luta simulada com adversários imaginários. O profundo conhecimento da técnica aí se encontra. E digo que aí também se encontra a inventividade mais profunda das artes marciais, pois os conflitos transformados em jogo abrem um horizonte simbólico de combate com os conflitos internos do lutador. A superação é de si mesmo, e os adversários, por serem imaginários, ou seja, por serem dotados de parcelas maiores da ação criadora do próprio performer lutador, podem ser representações ou esboços provisórios de diversas camadas da existência (pessoal, social, psíquica, espiritual) mais conscientes ou mais inconscientes que antagonizam e contradizem um ser integral e completo. O final de um kata é a realização de alguma completude (também simulada) após a vitória perante os antagonismos, a mais profunda e potencialmente criadora simulação de liberdade no percurso cifrado de códigos simbólicos que os iniciados podem revelar, compreender e interpretar no andamento da própria imaginação de quem inicia uma sequência de movimentos de luta contra a leve e muito difícil consistência do ar, ou contra “a insustentável leveza do ser”, como diria um escritor.

            Nos jogos olímpicos haverá competições de kumite (luta com competidores reais) e kata (sequência performada de movimentos de luta com competidores imaginários). Não existe kumite sem kata e ambos não existem sem kihon (técnicas e movimentos elementares, fundamentais, que configuram a estrutura básica das posturas e dos ataques e defesas). Tudo é Um, é busca de integração. Integração que ao menos  espero que seja, com a retomada do espírito olímpico, o vetor afetivo principal dos países vítimas da pandemia, sem mais negacionismos, descuidos, falsas messiânicas soluções e outros falsos combates muito distantes da imaginação poderosa e existencialmente consequente do kata.

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