A FADA DAS RUAS

Na cidade do interior de São Paulo na qual resido, chamada Socorro, sempre houve bastantes skaters. Várias das minhas amizades foram desse meio, que já deixou de ser marginalizado, tanto que foi incluso nas Olimpíadas de Tóquio (com Kelvin Hoefler conquistando a primeira medalha brasileira, prateada, de skate street), juntamente com o karatê e com o surf. Hoje dá para encontrar criança cool, descolada, com cabelo pintado e boné manobrando o skate por ruas e praças sem ser malvista ou terem pais criticados e julgados. Quando fiz uma parte do doutorado em Estudos Literários na Unicamp, havia um colega de sala que, ao mesmo tempo em que escrevia uma ótima tese sobre Roberto Piva, ganhava dinheiro competindo profissionalmente com skate. Assim como, sendo docente de Redação, já tive aluna de 5º ano do Ensino Fundamental com o perfil esboçado acima. Na minha cidade, os adeptos tiveram de lutar e reivindicar até que conseguissem, da Prefeitura, um Half Pipe em um recinto próprio para esportes e eventos. No passado, tinham de usar somente as praças, as ruas, as calçadas… Ou seja, eram street no sentido mais literal do termo. Apesar de minhas amizades, nunca tive a paciência de aprender a andar de skate. Cheguei a subir e andar, mas sem tentar qualquer manobra, apesar de haver incentivo por parte das amizades. Sempre fui das artes marciais e da escritura. Minhas manobras eram feitas para esquivarem de golpes, ou então para desferi-los, assim como para acertarem o direcionamento semântico de certas palavras ou o desenvolvimento rocambolesco de alguma metáfora absoluta de extração barroca. Meus pés voluteavam chutes, minhas mãos revoluteavam defesas e socos, ou então caçavam imagens vibrantes, veação na negra veiação do lápis. Foi em uma dessas caçadas que eu acabei tentando algumas manobras líricas que dessem conta de transfigurar poeticamente sensações que tive ao me deparar com imagens vibrantes de mulheres andando de skate. O poema que realizei a partir dessa tentativa não tem relação com a “realidade” a não ser no ponto de reelaborar algumas sensações. Imaginei, imbuído de um sentimento de jovem descolado, uma menina que fosse uma espécie de lenda urbana de seu meio, uma fada em quatro pequenas rodas que fosse rodeada de uma aura misteriosa em sua atuação, aproveitando para exercitar alguns termos próprios do arcabouço linguístico “conceitual” do skatismo. Para incrementar tal aura retomei elementos da antiga femme fatale para aplicá-los nesse novo mundo no qual ela exerceria seu poder de fascínio. Achei pertinente expor minha tentativa de ser um poeta mais descolado do que deslocado, na esperança de gauche (em mais de um sentido) de não levar um tombo tão sério. Assim posto, segue a transcrição do poema:

LENDA URBANA

Veloz Lolita
(Ainda hoje
Com lollipop),
Lançava olhares,
De cima do skate,
Como loops
De alguma música pop
Para seus amigos skaters.
Já teve Pool Riding,
Hoje quer Big Air.
Antes, no FreeStyle,
Suas sequências
Trouxeram amizades
E haters.
Os amigos têm saudades
Da lépida fada
Intrépida no street.
Ano passado,
Dizem as lendas
Que a reviram
Na cidadezinha
Fazendo, free,
Uma sequência
Em busca de manobras
E rimas perfeitas:
Kickflip,
360 flip,
Inward heelflip,
Hardflip.
Depois manobrou
Um beijo
E sumiu rapidamente
Ao som de algum hit.

Mencionei criança skater mais no início do texto e também imaginei uma fada das ruas para dar título e contexto a ele. Qual não foi minha surpresa ao ficar sabendo que há uma skater criança com o apelido de Fadinha, a brasileira Rayssa Leal, de meros treze anos, disputando as Olimpíadas. Esse poema deve fazer uns treze anos que foi gestado.

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