Xerecou no Campeonato

Nunca gostei de acordar cedo. Por mais que tente ir pra cama antes das 23h, acabo enrolando até a 1h. Não tenho mais idade pra varar madrugada e poucas coisas seriam capazes de me levar a fazer algo do tipo. Uma delas é ver as mulheres brilhando nessas Olimpíadas.
O fuso-horário japonês já havia me desafiado na Copa do Mundo de 2002. Lembro-me de colocar o despertador para tocar no meio da noite e de me arrastar até a sala, com a minha irmã, para ver o Brasil jogar. E valeu a pena, foi a última vez que vimos o nosso país levantar a taça.
Sábado passado fiz a mesma coisa. Programei o celular para tocar às três da manhã para ver Simone Biles e o que prometia ser uma apresentação histórica. Simone terminou a etapa classificatória em primeiro lugar, mas abriu mão de competir as finais para priorizar sua saúde mental. E, para mim, sua coragem valeu mais que uma medalha Olímpica.
Acompanhei a apresentação em grupo das americanas até as cinco e já fui logo colocando o alarme para me acordar de novo às sete: não perderia a apresentação das brasileiras por nada. E como elas brilharam! Flavinha detonou na barra e, mesmo após cair e se machucar durante sua apresentação no solo, irá disputar a final neste aparelho. Rebeca Andrade me fez chorar com sua coreografia de Baile de Favela, em uma apresentação perfeita.
Domingo à noite, zapeando os canais, eu e minha mãe nos deparamos com as meninas do skate. Sem grandes pretensões de continuar acompanhando a disputa, fomos hipnotizadas por aquelas meninas com carinha de bebê e atitude e coragem de gente grande.
Ao ver Rayssa, me lembrei de uma reportagem que assistira, também por acaso, há muitos anos: o encontro de uma garotinha mirrada com sua “ídola” Letícia Bufoni, a primeira mulher a fazer parte da seleção brasileira no skate. Na ocasião, Rayssa ficou tão emocionada que a repórter a pegou no colo.
Agora, Letícia e Rayssa estavam lado a lado, mostrando manobras incríveis, descendo por corrimãos, se abraçando, fazendo dancinhas e mostrando uma cumplicidade rara em um ambiente tão competitivo. A “princesa” e a “fadinha” do skate não estavam nem aí para esse papo de conto de fadas. De calça, tênis e boné, se atiraram de cabeça e deram seu show. Rayssa superou a mestra e levou a medalha de prata. E eu fui pra cama às duas da manhã.
As mulheres olímpicas valem minhas poucas horas de sono porque são inspiradoras, subindo ao pódio ou não. Sem elas, não teríamos a bravura de Simone Biles ao mostrar para o mundo que não é obrigada a nada, a sinceridade do choro da judoca Maria Portela, ao ser derrotada por Madina Taimazova e a força de Pâmela Rosa, ao subir no skate e disputar a prova com o tornozelo machucado, a atitude das ginastas alemãs ao trocarem o collant pela calça e combaterem a sexualização do corpo das mulheres no esporte. Nem os comentários da tetracampeã Karen John que, ao ver a australiana Hayley Wilson, da Austrália, cair de pernas abertas sobre o corrimão, mandou um “Xerecou no campeonato!” em rede nacional.
Que venham as xerecadas e os lugares mais altos do pódio para essas mulheres incríveis.

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