O que também esteve em jogo nos Jogos

Desconfio que todo mundo que já se debruçou um pouco em estudar sobre o fenômeno esporte, principalmente no ambiente acadêmico, ouviu a expressão: que ‘o esporte não é bom ou mau, mas será sempre aquilo que fizermos dele. Ou então: o esporte pode formar tanto patifes quanto homens virtuosos. Essas paráfrases advém das formulações teóricas do francês Pierre Bourdieu, um dos sociólogos mais respeitados do século XX, e do sociólogo e professor de Educação Física e Esportes, Pierre Parlebas, outro francês, considerado o pai da Praxiologia Motriz.
Apesar deste que vos escreve tender a concordar fortemente muito com tais definições, algumas reflexões soam importantes. Talvez devamos insistir na rigorosidade (e, porque não, radicalidade), de modo a compreender que o esporte, antes de qualquer coisa, é um jogo. E como jogo, é um fenômeno que carrega em si o desejo e as afecções de seus jogadores e jogadoras, integrantes de uma sociedade, que buscam, pelo devir, a satisfação, (re)construindo culturas e legando cultura lúdica.
O esporte como jogo, justifica, ainda mais, a expressão de que o esporte imita a vida, ou como diria Roger Caillois (nossa, só os franceses aparecem para jogar neste texto?), o jogo é expressão de uma sociedade. Assim, ele afirma que é possível concebermos uma sociologia a partir do jogo. E os Jogos Olímpicos são fontes inesgotáveis para visualizarmos todos esses conceitos dos autores franceses em ação.
Em meio à pequena sociedade de atletas brasileiros em Tóquio, por exemplo, é fácil percebermos muitos virtuosos e virtuosas, não apenas pelas vitórias e conquistas de medalhas – isso é do jogo, que comunga empenho e contingência. Em outras palavras, materializa um inevitável grau de sorte e imprevisibilidade. Falo, sim, da ética, do engajamento, do saber que nunca um e uma atleta deixa de ser cidadão ou cidadã. Atletas nunca deveriam ser marionetes nas mãos de seus treinadores e treinadoras (por sinal, estas, em um número, infelizmente, muito inferior). Vimos em muitos jogadores e jogadoras brasileiros atitudes éticas, subversivas, evidentes nas atitudes do ser que joga, que ganha e se alegra, que perde e levanta a cabeça, pois perder faz parte do jogo, e se hoje eu perdi, amanhã posso ganhar. Ou perder novamente. Mas o que o bom jogador e a boa jogadora nunca fazem é desistir.
Todavia, Parlebas não deixa de estar errado pois vimos, também, patifes, que ‘esquecem’ o quanto o esporte em nosso país é maltratado, por muitas políticas esportivas que visam apenas ganhar medalhas e não investir em uma nação potencialmente olímpica, a partir da democratização do acesso a uma quantidade muito mais expressiva de modalidades esportivas, quer seja nas escolas (e não me refiro às aulas de Educação Física), em clubes, universidades e projetos sociais. Mesmo com todo o elitismo e caráter excludente adotado, sem nenhuma cerimônia, por federações e confederações país afora, assistimos a melhor performance brasileira na história das Olimpíadas.
Apesar dos pesares, as 21 medalhas e a qualidade daqueles e daquelas que, mesmo não abocanhando ouro, prata ou bronze, fizeram história nos animam e nos incentivam a imaginar uma superação em relação ao que se faz com o esporte no Brasil, principalmente em relação à necessária superação de ações de captação e seleção de atletas natos, de modo a substituí-las por efetivas ações de formação de seres humanos, eternos aprendentes.
Em muitos projetos nacionais esportivos, a visão inatista ainda é hegemônica, uma vez arraigada em nossa cultura, gerando a precariedade na iniciação esportiva ao engendrar mais patifes que virtuosos e virtuosas. Os patifes nem deveriam chegar aos Jogos Olímpicos. Eles, ingenuamente, flertam, por meio de suas atitudes, postagens, falas e reverências, com pessoas que desrespeitam valores democráticos, estabelecidos após muita luta em nossa carta magna. Luta que os esportistas ajudaram e ajudam a vencer, liderados e inspirados por atletas como Sócrates, seus aliados e os novos convocados.
Quero crer que eles, os patifes, sejam apenas ingênuos, que vivem numa bolha de ignorância – em seu sentido literal. Esses, penso eu, acham que o fim da democracia não os afetaria. Nunca estudaram história brasileira e mundial. Nunca leram o excerto do poema “No caminho com Maiakóvski”, do poeta, Eduardo Alves da Costa:
“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada”.

Os poucos atletas que flertam com a militarização e a odes à ditadura deveriam parar de esportear, como diria o professor Lucas Leonardo, e reproduzir os valores da aristocracia, que tenta, desde o fim do século XIX pelo movimento de esportivização, usurpar o jogo. Deveriam aprender (ou devem, pois ainda há tempo), com a maioria dos nossos incríveis virtuosos e virtuosas em Tóquio, a jogar. Assumir sua condição de jogador e jogadora e não de ser jogado, como soldado que escuta calado a ordem de se dirigir à trincheira e ao próprio cadafalso, enquanto seu general está no ar-condicionado.
Como jogadores e jogadoras, aliás, é possível confirmar o terceiro e último conceito do francês Caillois e mostrar que a sociedade brasileira tem orgulho de seus bravos e bravas representantes. Vibramos a cada vitória; nos damos as mãos para ajudar a superar as derrotas – por mais doídas que sejam; sabemos o tamanho descomunal do empenho que levou cada atleta ao Oriente; temos consciência do quanto significa o ganhar para quem nasce no Brasil em decorrência das inúmeras derrotas que vivemos, dia após dia, em nossa tão desigual sociedade, recheadas de preconceitos estruturais e envolta historicamente por um capitalismo de amizade – a Pasárgada, de Manuel Bandeira.
Como não somos amigos do rei, vamos finalizar essa crônica com nossa Elis Regina (para vencer os franceses), interpretando Guilherme Arantes, e retratando em canto e verso a nossa prosa:
Vivendo e aprendendo a jogar
“Vivendo e aprendendo a jogar
Nem sempre ganhando
Nem sempre perdendo
Mas aprendendo a jogar
Água mole em pedra dura
Mais vale que dois voando
Se eu nascesse assim, pra lua
Não estaria trabalhando”.

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